
O sonho
A nuvem bailando no céu
A ave que grita o silêncio do dia
A folha da árvore que renasce no vento
No cristal de qualquer hora
Tu e eu.
Como água que corre para o mar. Solta num leito de pedras. Ora se alonga na vista de alguma paisagem, ora corre como se fosse urgente aquele diluir-se no azul infinito onde se encontram todas as águas. Sem parar, apesar das asperezas do solo que lhe serve de passagem. Como água. Líquido corpo de bruma desfeita pelo olhar do sol. E pela ternura que lhe dá o sonho de ser parte de um todo. Contornando obstáculos, alternando o olhar de melancolia com o de alegre frescura. Com a força da liberdade. Como água. Assim queria ser.
[Para responder ao carteiro, num desafio que consiste em escrever um texto que inclua doze palavras que representem algo para quem responde. Perdoem que não passe este desafio a ninguém em especial. Desafio todos os que o quiserem a pegar neste exercício, se ainda não o fizeram . Garanto que é interessante.]
Às vezes acreditava no que escrevia. Outras, as palavras não faziam sentido. Rodeavam-na numa estranha dança. Ora formavam um puzzle completo, ora fugiam, trocistas, deixando buracos abertos naquela malha de ideias que lhe ocupava a mente. As palavras… Tinha com elas uma relação de amor. Ou de raiva. Não podia respirar sem as transmitir nem que fosse a um ecrã em branco, ou a uma qualquer folha de papel achada por acaso. Mas sabia a frustração de não conseguir reter em palavra escrita aquilo que os sentidos captavam. Arrumava na memória cores e sons para um dos dias libertadores de palavras. Aqueles em que conseguia fazer uma harmonia das letras que, por vezes, lhe pareciam espantadas, brancas, sem sentido. Esses eram os momentos em que as soltava para si e para quem quisesse partilhá-las. As palavras do dia.