
No céu de cada dia
As nuvens dão-me o inaudível som
Da melodia que se dilui
Na necessária rotina de viver
Assim será
No tempo futuro que antevejo
Nem sempre soa a nota inesperada
Que nos faz atingir o horizonte.

a ave não voa. agora não. presa ao chão por raízes de desencanto. o voo era só um sonho inútil. deixa-se baloiçar com o vento e sente lembranças da embriaguez do espaço. tenta construir os seus dias no ninho suave que sempre a acolheu. pouco a pouco caem as asas. guarda consigo algumas penas num pequeno canto forrado de ternura.

…e naqueles dias em que o sol parecia iluminar recantos que nem ela sabia que existiam? Passeava a doçura que sentia no corpo pelas ruas da ternura. Sabia que o sol não era eterno, provavelmente nem duradouro. Sabia há muito que pedimos impossíveis, precisamente porque são impossíveis. O realizável reside em nós e começa na decisão do que queremos. Para ela, naqueles dias, era apenas aquele sol que lhe fazia pulsar o sangue no corpo, acelerado. No caderno escreveu só: “Hoje o sol brilhou. Por todo o meu corpo.”