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sábado, outubro 04, 2008

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Fechei a luz
Abri no escuro a caixa de Pandora
Espalhei todos os males em meu redor
Recolhi-os em mim
Restou a secura que a alma reconhece
Como um vento de deserto
E a busca da água da esperança
Renascido oásis no limite do caminho


[Há ciclos que temos que fechar. Estes dois blogs terminam hoje. É altura de voltar a uma casa que, no fundo, nunca deixei. Quem me quiser encontrar, estou num blog aqui ao lado. Não é a Internet um mundo tão grande e tão pequeno, ao mesmo tempo? Espero ver-vos por lá. Obrigada pelo apoio e carinho que me deram, aqui.]

segunda-feira, setembro 22, 2008

Sei-te




Fora de mim te sei
Alma que um dia julguei minha
Morada de calma cumplicidade
Em que outrora quis ser eu
Sem falsas máscaras ou disfarces sedutores
Sei-te no silêncio ou na palavra
No dia aberto ou na noite de horas brancas
No breve toque ou na distância
Sei-te na pele
Por lá mora o teu caminho
Que afastas em cada trilho de incerteza
Orlado de nevoeiros sonhadores

Por te saber tão fora de mim
Sendo que em mim ficou a tua essência
Te chamo calada, quieta nas palavras
Até que de ti próprio sintas a ausência.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Nem o grito de uma ave




Nem o grito de uma ave
Que adivinha a partida para locais outros
E se despede dos campos de sal
Quebrará o silêncio das tardes inquietas
Ensolaradas horas que instantes não esgotam.
Todo o corpo desperto hesita na rota
Calado sufoco de qualquer sentimento.

Nem uma palavra no verso em que me oculto
Dirá do pulsar dentro do silêncio de uma lenda antiga
Sem princípio ou fim
Um sonho, uma brisa, talvez um momento.

domingo, setembro 14, 2008

Sopra o vento sobre o sapal




Sopra o vento sobre o sapal
Na noite tecida de fios de incerteza
Nele me reconheço
Me invento, me esvoaço
Qual ave perdida nos caminhos do sal
No vento sem rumo que me invade o sono
Plano expectante nas ondas do ar sem saber de praia
Onde vou cair
Ou planície de urze aonde pousar
Pairo só no vento por sobre o sapal
Desafio as aves ocultas na noite de prata
Para, num voo final, alcançar o mar.

quinta-feira, agosto 28, 2008

Largos espaços



Sonho com largos espaços libertos
E infinitos azuis de uma outra cor
Braços de mar à volta do meu corpo
Água ou bálsamo ou vida, amor

Longas paisagens de sol ardente
Desafio vermelho à luz do meu olhar
Labirintos que sigo pelo voo das aves
Traçados apenas para os decifrar

Abismos onde mergulho sem medo
Do sopro da angústia recolhidas garras
Longos caminhos no horizonte de mim
A emergir do sal livre de amarras



[Vou à procura de largos espaços. O resto das férias. Até meados de Setembro. Beijos e abraços.]

sábado, agosto 23, 2008

Insidiosa hera




Nas rotas do ocaso
Vergam-se caules ao vento que assobia
Rumor pressentido em dias quietos
Viragem do ar e som de naufrágio
Um quase estertor, uma agonia

Caminhos de sol poente
Onde a secura alastra pelas margens
Escoa-se a vida em dedos cor de terra
Com que afagamos o corpo dormente.

E o silêncio cresce no dorso da dúvida
Como qualquer insidiosa hera.

segunda-feira, agosto 18, 2008

Miragem




Existe a imagem reflectida
no fundo dos rios que correm
em todos os espelhos de água
onde me vejo perdida
de ti .

Procuro o reflexo azulado
da luz em ondas refractada
um líquido corpo de cristal
suave miragem amada
em mim.

Encontro no leito da água
na silenciosa hora do sol posto
resposta a meus olhos de mágoa,
o teu rosto.

segunda-feira, julho 28, 2008

Novos tempos de mudança




Falo dos dias calados, quietos
Que se alongam em paisagens melancólicas
Acolhem o sol em visitas fugidias
Outonos já marcados
Sem que o estio seque o fluir das águas
Deixamos que a alma se distenda
Para lá do subtil fremir da inquietação
Esperamos árvores com salpicos de ouro
Ventos que murmuram ritmos da terra
Que já não cumprem a antiga tradição
Assim ficamos olhando o horizonte
Que não nos diz do azul de outras eras
Mas de estranhas cores pintadas de incerteza
São estes os novos tempos de mudança
Passagem pressentida na brisa que circula
Dentro da casa construída de esperas.

terça-feira, julho 22, 2008

Tu




Existes
aí no limite do meu sonho
onde os gritos do silêncio ecoam.

Miragem
concreta em momentos inventados
fuga de mim em dias de azul.


Absurda
a ideia de ti nas horas caladas
planta no meu peito a flor da solidão.


Aí no limite do meu sonho…



Janeiro 2005

quinta-feira, julho 03, 2008

Palavra aberta




Não olhes. Vê.
Mesmo que os olhos
te ardam.
Não toques. Sente.
Mesmo que o corpo
te doa.
Não fales. Diz.
Mesmo que a alma
te sangre.
De ti quero a palavra
aberta tanscrição clara
dos sentidos.

sábado, junho 28, 2008

A cor do girassol







Fosse a vida só o que se explica
Girasse o mundo na órbita certa
Simples na frieza dos números
A cor do girassol seria só amarela
Por convenção de linguagem
Não a cor do astro que persegue
Pedaço de luz caído na terra
Leve indício duma senda de ilusão

sexta-feira, junho 13, 2008

Alentejo




Nem um sonho se avista
No sopro da planície
Só a esperança da árvore
Tão verde que dói
Neste solo que abrasa
Neste ar que entontece
E o riso vermelho
Na beira da estrada
Da papoila que espera
E esmorece.

sexta-feira, maio 30, 2008

Existem os cavalos...




É certo que existem os cavalos
tranquilos no pasto
como se toda a liberdade fosse sua.
Serão as cercas apenas fios leves
teias, carícias sobre a pele nua?
Será que imaginam felicidade
no suave vegetar das suas vidas?
Não intentam fuga ou protesto
nem se agitam em vãs tentativas,
são a simples imagem da beleza
sopro do vento na margem esquecida.
Existem dentro da minha certeza,
feitos para o voo
presos na armadilha da vida.


Janeiro 2007


[Peço desculpa pela minha falta de assiduidade nos vossos blogs. Voltarei lá para o fim da próxima semana. Lá, do outro lado, há Alegria!]

domingo, maio 25, 2008

Chuva



Sinto o cheiro da chuva nas manhãs
Ainda mal o sol se anuncia
Leio os avisos de Outono adiantado
Deixados na soleira da porta
Um murmúrio de água
Teima que é tempo de renascer
Mas os braços alongam-se no vazio
Desta chuva que molha sem lavar
Escorre nos dedos o desejo de viver

segunda-feira, maio 19, 2008

No verso da folha



Quero escrever
no verso da folha
palavra incorrecta
de sentir errado.
Virar-me do avesso
e dizer de mim
o que está calado.
Porque, de ser certa,
a frase escondida
breve se revela,
perdido o encanto
que nela habita.
E o verso falado
deixa por não dita
aquela palavra,
a tal incorrecta,
o olhar perverso
que apenas espreita
no poema escrito
na folha perfeita,
na beira do verso.


Março 2006

domingo, maio 11, 2008

Cristal frio




As madrugadas estão prenhes
De implacável lucidez
No seu ventre adejam pássaros
De agoiro
Sem rótulo de bom ou mau
Só certezas de coisas por vir
Até ao dia em que se abatem
Na poeira que contemplo
Essa será a hora da limpidez
Do cristal frio de que me escondo
Com medo que me cegue

Preparo-me devagar
Para enfrentar o espelho
De alma sem maquilhagem

quarta-feira, maio 07, 2008

Sem ti




Sem ti
recolho-me à tela dos dias
pintados de frescura azul
mergulho na pele de mim
tecido vivo em que te cosi
te prendi.
Encontro um grito velado
escondido entre a carne
e a superfície
que enche a brandura da tarde
do cio das horas antigas
por viver.


Julho 2006

domingo, abril 20, 2008

Vento



O vento não leva consigo o silêncio
Só amplia o grito que nele existe
No verde inquieto da copa das árvores

sexta-feira, abril 11, 2008

Como se...




Um dia farei um hino à vida
Cantarão versos dentro das palavras
Nenhuma dor ecoará no espaço
Do poema.
Um dia direi que sou feliz
Sem reservas no som das entrelinhas
A cor no horizonte será o eterno
Azul.
Um dia o mundo acordará às avessas
Todos os poetas falarão de alegria
Como se essa fosse a verdade
Das coisas.

Junho 2007


[ Perdoem se a falta de tempo e a pouca inspiração não permitem que aqui publique textos actuais. Melhores dias virão, é o que podemos esperar. ]

segunda-feira, abril 07, 2008

O bater do coração




Corre o tempo
e tudo muda
o vento que traz a dor
e o riso que alimenta
o bater do coração.
Passa a vida
e na esquina
após cada mutação
existe um outro local
tão diverso e tão igual
onde o ciclo recomeça.
Mas a venda da ilusão
muda as cores
muda a emoção,
sendo que tudo é tal qual.
E o tempo que não pára
vai mudando sem mudar.
Riso e dor trazem consigo
o mesmo bater trocado
no ritmo do coração
e aquele vento antigo
que nos coloca na esquina
duma nova mutação.

Outubro 2006