
terça-feira, setembro 30, 2008
Matemática

sexta-feira, setembro 26, 2008
Passo a passo

Todos se perguntavam porque ficara ali, até ao momento em que a erosão desfez os muros. Ainda nesse instante se deixou ficar sentada, os braços envolvendo os joelhos, como que protegendo algum tesouro ignorado. A luz lá fora era demasiado crua, feria-lhe os olhos e a pele. Com um pedaço do muro, já quase só pó, guardado na mão, caminhou devagar para fora. E andou no caminho à sua frente. Passo a passo.
sexta-feira, agosto 01, 2008
Refúgios

Construímos refúgios que pensamos seguros, abrigados, santuários em que nada nos pode magoar. Talvez apenas lugares de fuga de uma vida demasiado cheia de caminhos acidentados. A eles voltamos sempre que possível para, da doçura que aí paira, tirarmos forças novas. Funcionamos assim até que as paredes do refúgio começam a abrir brechas. E remendamos, remendamos até tudo parecer seguro novamente. Mas as brechas estão lá. Profundas. Um dia, reparamos nas paredes rugosas, nos ventos que entram e sentimo-nos desconfortáveis. Ainda assim, tentamos consertar o que é possível. Mas é tarde demais. O refúgio já não o é. Sabemos então que é hora de partir. Para os caminhos acidentados até que, nalgum recanto, seja possível encontrar, de novo, santuário.
[Para mim, não é hora de partir daqui, mas de fazer um intervalo. Uma parte das férias. Volto lá para meados do mês de Agosto. Boas férias a todos!]
quinta-feira, julho 17, 2008
No caminho do sol

Não me contrariem o sol. Não façam nada que lhe tape a luz. Deixem-no brilhar, aquecer, acariciar o corpo com mãos de amante. Não me gritem ventos de desgraça, prenúncios do fim, nem bem sabemos de quê (sabem-no os arautos do infortúnio?). Vou pensar nisso amanhã. Ou depois. Prometo. Hoje quero que seja o sol que me guia. Quero acreditar na luz dourada, seguir-lhe o rasto na areia quente de uma praia minha. Não existe? Eu invento-a. E nela revivo velhos rituais de adoração ao astro quente que nos dá vida. Por hoje. Deixem-me acreditar no sol, por um dia.
domingo, julho 13, 2008
saudades (II)

…de galos e cães ao desafio pela manhã. do branco das flores nas laranjeiras no quintal. do som da água quando ainda havia rio. da alma dos bêbados que se derramava no beco pelas noites quentes de verão.
das carteiras com tampo de levantar onde escondia os livros de quadradinhos. e o diário que viu as primeiras letras de mim. das meninas de um lado do muro olhando os rapazes do outro, na dificuldade que aguça os primeiros desejos.
do presépio grande feito na escola com musgo apanhado nas veredas. da peça de teatro em que o menino nascia enquanto os namoricos se soltavam. do frio que celebrava todos os natais da aldeia. do fogo da salamandra cortando o escuro da noite. embrulhando em sonhos as horas de silêncio.
da vida dependente de um olhar azul, primeiro amor escrito e chorado entre a escola e as viagens de comboio. dos risos escondidos nas aulas de francês. do olhar torturado do jovem professor que tentava dar aos números um sentido.
dos fatos de banho nas praias sem biquínis, a não ser das estrangeiras “escandalosas”. das ondas geladas onde entrava com um pai mais próximo por ser verão. das formas de fazer bolos de areia para um qualquer aniversário de bonecas.
dos pratos de bolos na mesa do café onde se olhava uma caixa mágica nas tardes longas dos domingos de província. da quinta ardendo pelo sol da tarde que punha o doce nas uvas acabadas de apanhar. nas amoras que caíam das árvores. nas ameixas verdes com nome de rainha.
saudades até da raiva incontida ao perder cedo o olhar de inocência sobre um país que julgava igual ao que me ensinavam na escola.
e…tanta coisa que agora lembro. saudades de um mundo que partiu. saudades de mim, outra que fui.
[O poema da maria de fátima no A cor do silêncio fez-me lembrar as minhas saudades. E ficou assim... ]
terça-feira, julho 08, 2008
palco

foto by Inês Duarte
invento-me. (re)invento-me. instalo-me em cada criação. como se fosse a definitiva. como se… canso-me. perco o sentido do rosto que criei. esvazio-lhe a alma. procuro outro palco. outra personagem que sou eu e não sou. não sei bem quem sou. saberás tu? ou apenas conheces a minha personagem para ti?
quinta-feira, junho 19, 2008
Na planície dourada

O sol era um braseiro na manhã adiantada. Visto o castelo, feitas as deambulações pelas vielas de brancas paredes, o jardim chamava com promessas de sombra e descanso. Entrei, passo lesto em direcção ao muro que dava direito a uma ampla vista. A máquina pronta a disparar, pois claro. Paisagem a perder-se no horizonte longínquo convenientemente registada “para mais tarde recordar…”. E depois olhei o jardim com olhos de ver. Bonito, maneirinho. Um café, um coreto, alguns bancos à sombra e um estranho aparelho no meio, como estátua ou ornamento. Sem saber bem o que era, fotografei de vários ângulos, como convém. Sobretudo quando não se sabe bem o que é…
“Minha senhora, sabe, isso era a aguadeira daqui.”
Um dos homens sentados nos bancos tinha-se levantado e fez-se voz de recordações de tempos de meninice ou talvez até um pouco mais tarde na vida.
“Sabe a senhora que, quando não havia água canalizada, andavam com isto puxado a bois e davam água ao povo. O condutor sentava-se naquela cadeirinha, está a ver?”
Estava a ver. Daí a “aguadeira”. Percebi e agradeci-lhe ter ficado a perceber o que era “aquilo”.
“Ah, não imagina o que a rapaziada gostava quando isto andava nas ruas. É que às vezes, para sacudir os moços que se penduravam, o condutor deitava água lá por trás da maquineta. E não é que era isso mesmo que a rapaziada queria?”
E o riso do homem fez-se claro como naqueles tempos. Depois, com que envergonhado, foi dizendo:
“A senhora desculpe. Está a gostar do jardim? E aquela vista? Vi que tirou fotografias.”
Acho que o meu olhar lhe disse o quanto tinha gostado do jardim, da terra, daquela humanidade transbordante e franca. Com um sorriso meio triste rematou:
“Sabe, temos que nos entreter com qualquer coisa. Já viu, tantos velhos…”
Tinha visto, sim. Naquelas terras da planície dourada, a vida parece parar nos seus olhos. Observam o passar do tempo. Repositórios vivos duma sabedoria que com eles se perderá.
sexta-feira, maio 02, 2008
Em redor do lago Léman

quarta-feira, abril 16, 2008
palavras sem sentido

segunda-feira, março 24, 2008
Patos no quintal

terça-feira, março 11, 2008
Reflexões (I)

domingo, fevereiro 24, 2008
Em sentido único
quinta-feira, fevereiro 21, 2008
Como água

Como água que corre para o mar. Solta num leito de pedras. Ora se alonga na vista de alguma paisagem, ora corre como se fosse urgente aquele diluir-se no azul infinito onde se encontram todas as águas. Sem parar, apesar das asperezas do solo que lhe serve de passagem. Como água. Líquido corpo de bruma desfeita pelo olhar do sol. E pela ternura que lhe dá o sonho de ser parte de um todo. Contornando obstáculos, alternando o olhar de melancolia com o de alegre frescura. Com a força da liberdade. Como água. Assim queria ser.
[Para responder ao carteiro, num desafio que consiste em escrever um texto que inclua doze palavras que representem algo para quem responde. Perdoem que não passe este desafio a ninguém em especial. Desafio todos os que o quiserem a pegar neste exercício, se ainda não o fizeram . Garanto que é interessante.]
quarta-feira, fevereiro 13, 2008
As palavras do dia

Às vezes acreditava no que escrevia. Outras, as palavras não faziam sentido. Rodeavam-na numa estranha dança. Ora formavam um puzzle completo, ora fugiam, trocistas, deixando buracos abertos naquela malha de ideias que lhe ocupava a mente. As palavras… Tinha com elas uma relação de amor. Ou de raiva. Não podia respirar sem as transmitir nem que fosse a um ecrã em branco, ou a uma qualquer folha de papel achada por acaso. Mas sabia a frustração de não conseguir reter em palavra escrita aquilo que os sentidos captavam. Arrumava na memória cores e sons para um dos dias libertadores de palavras. Aqueles em que conseguia fazer uma harmonia das letras que, por vezes, lhe pareciam espantadas, brancas, sem sentido. Esses eram os momentos em que as soltava para si e para quem quisesse partilhá-las. As palavras do dia.
sexta-feira, janeiro 25, 2008
Não voa

a ave não voa. agora não. presa ao chão por raízes de desencanto. o voo era só um sonho inútil. deixa-se baloiçar com o vento e sente lembranças da embriaguez do espaço. tenta construir os seus dias no ninho suave que sempre a acolheu. pouco a pouco caem as asas. guarda consigo algumas penas num pequeno canto forrado de ternura.
domingo, janeiro 20, 2008
Notas no caderno de viver (II)

…e naqueles dias em que o sol parecia iluminar recantos que nem ela sabia que existiam? Passeava a doçura que sentia no corpo pelas ruas da ternura. Sabia que o sol não era eterno, provavelmente nem duradouro. Sabia há muito que pedimos impossíveis, precisamente porque são impossíveis. O realizável reside em nós e começa na decisão do que queremos. Para ela, naqueles dias, era apenas aquele sol que lhe fazia pulsar o sangue no corpo, acelerado. No caderno escreveu só: “Hoje o sol brilhou. Por todo o meu corpo.”
domingo, janeiro 13, 2008
Notas no caderno de viver (I)

Voltou a chuva. Anotou o acontecimento no pequeno caderno. Aquele hábito de ligar os ritmos da natureza aos seus, pareceria talvez estranho. Mas ninguém, a não ser ela, lia o caderno. E também nunca lhe causara preocupação que a considerassem estranha. A chuva aninhava-a em si própria numa semi-apatia. Deixando que em si chovesse também. Sinal de renovação, diriam os antigos. Aqueles que iam desaparecendo da sua vida. Em nome deles, deixou que a chuva interior fizesse o seu trabalho. Tudo renasceria na natureza. Como sempre, naquele ciclo infinito que é o tempo. Também nela a vida seguiria o seu caminho, passando outra vez dos dias de sol àqueles em que parece chover no mundo inteiro. Enroscou-se um pouco mais, escutando a água que batia nos vidros. Dentro de si, acarinhou a semente da alegria.
No caderno, ficou só uma nota : “Hoje voltou a chover. Espero que as flores me nasçam nos olhos, lá para a Primavera. Segundo o calendário, já não falta muito.”
quarta-feira, janeiro 09, 2008
as palavras presas

...a pressa de partir. sem rumo. os rumos traçados acabam por tropeçar numa pedra da estrada certinha. e não quero ouvir mais essa palavra. certo. certinho. caminho pelo (re)verso. aí residem as palavras presas que hei-de libertar. agora. porque não podem esperar muito mais. o tempo é a prisão mais estreita. estraga. dilacera. até as palavras presas. sim. um dia libertas, já não são as mesmas. o que não foi dito, já não se dirá. por isso há que partir enquanto é tempo. enquanto as palavras ainda vivem. há que encontrar a folha errada onde as prenderam. está por aí nos caminhos sem rumo. (in)versos.
quarta-feira, janeiro 02, 2008
como crianças...
vivíamos como se fossemos imortais. talvez. algo de nós, pelo menos, seria imortal. pensávamos assim, como crianças que não acreditam que o que amam pode morrer. para sempre, pensam. as crianças também perdem a inocência e a realidade impõe-se-lhes. um dia. um dia qualquer daqueles em que ainda pensam que… pensam, pois. como nós pensávamos. continuamos a pensar tanta coisa… mas o que pode comparar-se a ser imortal? a ser para sempre, como seres que escapam às leis dos homens. ou dos deuses? bah… que se lixem os deuses. não me dizem mais do que o que sei. que é limitado, concerteza. os deuses mandam-me conformar à finitude. a não aspirar nada para sempre. mas eu sei. para sempre é só enquanto um pedaço de nós ainda se assemelhar às crianças. enquanto acreditarmos que o que amamos não morre.
quarta-feira, dezembro 26, 2007
Balanço

Balanço. Nos dias e na vida. Correm recordações como cães à solta em campo aberto. Passam depressa e não permanecem. Podem morder por dentro. Como alguns cães. Ou fazer doces afagos. Como os leais amigos. Enxoto as recordações, boas e más. Finjo que o tempo pára e volta a andar. Para um dia novo. Para um ano em branco. E tento olhar os caminhos que o balanço dos dias vai abrindo. Para mim, quero um 2008 com novas realidades, algumas esperanças. As recordações podem deitar-se a dormir. Ao som das doze badaladas.
Para vós, os votos de um 2008 pleno de desejos realizados. Não sei se algum caminho me leva para longe mas espero voltar em Janeiro…

