
No céu de cada dia
As nuvens dão-me o inaudível som
Da melodia que se dilui
Na necessária rotina de viver
Assim será
No tempo futuro que antevejo
Nem sempre soa a nota inesperada
Que nos faz atingir o horizonte.
a ave não voa. agora não. presa ao chão por raízes de desencanto. o voo era só um sonho inútil. deixa-se baloiçar com o vento e sente lembranças da embriaguez do espaço. tenta construir os seus dias no ninho suave que sempre a acolheu. pouco a pouco caem as asas. guarda consigo algumas penas num pequeno canto forrado de ternura.
…e naqueles dias em que o sol parecia iluminar recantos que nem ela sabia que existiam? Passeava a doçura que sentia no corpo pelas ruas da ternura. Sabia que o sol não era eterno, provavelmente nem duradouro. Sabia há muito que pedimos impossíveis, precisamente porque são impossíveis. O realizável reside em nós e começa na decisão do que queremos. Para ela, naqueles dias, era apenas aquele sol que lhe fazia pulsar o sangue no corpo, acelerado. No caderno escreveu só: “Hoje o sol brilhou. Por todo o meu corpo.”
Voltou a chuva. Anotou o acontecimento no pequeno caderno. Aquele hábito de ligar os ritmos da natureza aos seus, pareceria talvez estranho. Mas ninguém, a não ser ela, lia o caderno. E também nunca lhe causara preocupação que a considerassem estranha. A chuva aninhava-a em si própria numa semi-apatia. Deixando que em si chovesse também. Sinal de renovação, diriam os antigos. Aqueles que iam desaparecendo da sua vida. Em nome deles, deixou que a chuva interior fizesse o seu trabalho. Tudo renasceria na natureza. Como sempre, naquele ciclo infinito que é o tempo. Também nela a vida seguiria o seu caminho, passando outra vez dos dias de sol àqueles em que parece chover no mundo inteiro. Enroscou-se um pouco mais, escutando a água que batia nos vidros. Dentro de si, acarinhou a semente da alegria.
No caderno, ficou só uma nota : “Hoje voltou a chover. Espero que as flores me nasçam nos olhos, lá para a Primavera. Segundo o calendário, já não falta muito.”
...a pressa de partir. sem rumo. os rumos traçados acabam por tropeçar numa pedra da estrada certinha. e não quero ouvir mais essa palavra. certo. certinho. caminho pelo (re)verso. aí residem as palavras presas que hei-de libertar. agora. porque não podem esperar muito mais. o tempo é a prisão mais estreita. estraga. dilacera. até as palavras presas. sim. um dia libertas, já não são as mesmas. o que não foi dito, já não se dirá. por isso há que partir enquanto é tempo. enquanto as palavras ainda vivem. há que encontrar a folha errada onde as prenderam. está por aí nos caminhos sem rumo. (in)versos.
vivíamos como se fossemos imortais. talvez. algo de nós, pelo menos, seria imortal. pensávamos assim, como crianças que não acreditam que o que amam pode morrer. para sempre, pensam. as crianças também perdem a inocência e a realidade impõe-se-lhes. um dia. um dia qualquer daqueles em que ainda pensam que… pensam, pois. como nós pensávamos. continuamos a pensar tanta coisa… mas o que pode comparar-se a ser imortal? a ser para sempre, como seres que escapam às leis dos homens. ou dos deuses? bah… que se lixem os deuses. não me dizem mais do que o que sei. que é limitado, concerteza. os deuses mandam-me conformar à finitude. a não aspirar nada para sempre. mas eu sei. para sempre é só enquanto um pedaço de nós ainda se assemelhar às crianças. enquanto acreditarmos que o que amamos não morre.