sexta-feira, setembro 26, 2008

Passo a passo




Descobriu um dia que se tinha exilado entre muros rendilhados. Soprava sobre ela a delicadeza da brisa do exterior e tinha a falsa noção de que seria fácil derrubar as barreiras à sua volta. Por vezes tentava. A oscilação das paredes era real mas a resistência também. Mas quão delicados eram aqueles muros! Traziam-lhe a ilusão de que todo o prazer, todo o conforto podia existir dentro deles.
Todos se perguntavam porque ficara ali, até ao momento em que a erosão desfez os muros. Ainda nesse instante se deixou ficar sentada, os braços envolvendo os joelhos, como que protegendo algum tesouro ignorado. A luz lá fora era demasiado crua, feria-lhe os olhos e a pele. Com um pedaço do muro, já quase só pó, guardado na mão, caminhou devagar para fora. E andou no caminho à sua frente. Passo a passo.

20 comentários:

CNS disse...

A luz do mundo lá fora... Gostei muito deste teu texto. Um beijo.

instantes e momentos disse...

lindissimo teu blog. Gostei daqui, muito.
Maurizio

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Maria Laura:
Gostei muito do seu texto. Você vai gostar e, com certeza, vai notar certo parentesco com um texto que traduzi e postei chamado "A Recém-Casada". Acabo de fazer novo post. Apareça, querida. Você vai gostar.
Um beijo,
Renata
wwwrenatacordeiro.blogspot.com

Mateso disse...

A concha do ser protegendo-se do estar exterior.
Muito bonito.
Bj.

Vivian disse...

...quantas vezes nos enclausuramos
em nós mesmos, e com isso deixamos
de viver a felicidade...

lindo post inspirador!

bjs

~pi disse...

o nascer é

uma



pedra





beijo





~





~

hfm disse...

passo a passo num caminho que se quer sempre outro.

hfm disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Violeta disse...

"E andou no caminho à sua frente. Passo a passo."
e é assim que se faz a vida...

heretico disse...

a luz "lá fora" requer aprendizagem. tens razão!

admiravelmente bem escrito. gostei muito.

beijos

Marinha de Allegue disse...

Sen pausa pero sen prisa percorrendo o caminho...

Unha aperta.
:)

M. disse...

Muito bonito.

JPD disse...

De certa maneira um regresso a um tempo passado, à residência de entes querido, provavelmente.

Substracto para o presente e futuro.

Bem escrito e muito bonito.
Bjs

mena m. disse...

Quanta força e coragem são necessárias para dar esses primeiros passos...

Excelente!

JR disse...

Está fantástica a foto. Digna de um "ruinólogo" como eu.

Felinea disse...

lindas palavras. te ler é muito bom!

um abraço carinhoso.

daniel disse...

Maria Laura

Evidentemente, aprecio os teus textos, procuro "bebê-los. Como este, interpreto-o com um pernsamento, cujo sentido deve ser meditado.
Beijos
Daniel

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Laura:
Já comentei este teu texto belíssimo. Vim convidá-la para ir apreciar o meu novo post e deixar a sua opinião. Apareça.
Um beijo,
Renata
wwwrenatacordeiro.blogspot.com
PS: Mudei de fotografia, pus uma de quando era criança

Oliver Pickwick disse...

Reinventou o conceito de muro. Jamais olharei para um deles como antes.
Um beijo!

Anônimo disse...

Arenosa (e enganosa) muralha de arraigados preceitos que impede-nos de transpor as cordilheiras dos receios; felicíssimo instante em que, trôpegos, caminhamos sobre os escombros de nossa timidez e completo desconhecimento dos segredos saborosos do existir. Abraço do Jorge Luiz (Gato Vadio, Blogspot)