
Já vos aconteceu começar a escrever sem fazer a mínima ideia do que vão pôr no papel mas tendo uma frase, uma só frase que por todo o lado murmura, fala, grita? Não é o terror da folha em branco, não estou minimamente aterrorizada porque sei que seja o que for que escreva terá que, de alguma forma, ir encontrar esta frase que hoje me obceca :"Uma nesga de céu”. Não o céu todo, nem sequer o azul sem nuvens. Só um pequeno, ínfimo pedaço daquela imensidão. Não será aquilo a que todos temos direito? As vidas cinzentas do dia a dia, a monotonia que nos faz repetir os mesmos gestos às mesmas horas tapam-nos a nossa “nesga de céu”. Levantar às mesmas horas, maquinalmente cumprir a rotina diária, comer às mesmas horas, nos mesmos sítios, com as mesmas pessoas… Onde está a cor da vida? E, sobretudo, onde está o azul? Claro, escapamos de quando em vez, ou porque nos encontramos face a face com a beleza sob qualquer forma ou porque nos defrontamos com sentimentos que nos transcendem e algo acende em nós a luz que revela a paleta multicolor. Entrevemos então a nossa “nesga de céu”. Rara, preciosa. Dificilmente duradoura. Se o for, não lhe damos a importância devida. Distinguir nela o azul da harmonia e guardá-lo em nós nalgum canto escondido é a tarefa que perseguimos, por vezes uma vida inteira. As palavras trouxeram-me até aqui. Umas atrás das outras, sem nenhum caminho traçado à partida. E tal como comecei, sem destino certo, tenho que acabar. Porque nisto de entrever a “nesga de céu”, não há receitas, nem mezinhas. Muito menos sermões ou grandes dissertações. Ela está por aí. Procurem-na, que eu também o faço. Por vezes encontro-a, por vezes perco-a.